Escrever (ê) v. intr. 1. Representar o pensamento por meio de caracteres. 2. Formar letras. v. tr. 3. Pôr ou dizer por escrito. 4. Encher de letras.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Brecha

Brecha

Estar, ser e , as vezes, somente existir, reparar o mar que manso nada fala ,mas diz na sua calma qualquer coisa que ,em silencio, nos mata. Se repararmos tudo gira na sua perfeita harmonia, e o caos é organizado numa bela sinfonia de dias que despercebidos passam. Na realidade nada acontece e se, ao menos, mergulhássemos no conceito de nada, viveríamos um décimo do que ainda chamamos de vida. Mas não, voltamos ao mar agitado, ao silencio ensurdecedor , ao caos programado, voltamos a loucura que obedece gráficos, ao estar sem ser, ao ser humano, ao animal adestrado que , as vezes, poderia insistir em somente existir.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fotografia

Fotografia

Fito, fato, foto, grafia, gosto, corto. Cada centímetro, desfoco, acho o foco, deito, cresço, paro, firmo, foto. Arte de fixar a imagem fitada de um fato, com a luz na película enclausuro, momentos, lamentos, dias, pedaços de vida, objetos por acaso, corpos desnudados, por todos os lados. As vezes queria poder viver dentro de um porta-retrato. Fotografaria lugares incríveis e gozaria o resto da vida, as paixões quando capturadas seriam eternizadas no auge e em um único flash, momentos únicos não terminariam em minutos e pessoas não passariam tão de repente. Retalharia toda a existencia em pequenos pedaços,fotografias, e dela faria um só álbum . Seria um orgasmo continuo que nem o tempo poderia impedir ou, seguindo sua especialidade, iludir. Por isso, insisto, fito, fato, foto, grafia, gosto, corto a vida. As vezes eu realmente queria poder viver dentro de uma fotografia,na estante num porta-retrato, quem sabe gozar a vida num único ato. Mas para me contentar com alguns pedaços perfeitos,retratos, colados num álbum sem outro da sua espécie ou qualidade, acho que ainda teria que viver muito, quem sabe, toda essa vida, e outras que ainda nao foram reveladas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Play

Play

Rolos,rolos, revira, poeira, são muitos de uma vida, caixas empilhadas, reviradas entre o fim e o começo, algumas embrulhadas, outras massacradas, caixas abertas, fechadas, lacradas,algumas reconheço, reviro caixas. Acho entre muitas, ela. É essa a caixa que guarda o mais novo filme da minha vida. Desembrulho como um recém-nascido saindo das minhas entranhas, tem cheiro de tesão no ar, descontrole, loucura com perda de sentidos, acho que era esse o cheiro que não sentia fazia algum tempo. Como num santuário ,ponho num grande maquinário o que aos poucos das minhas mãos se distancia, as luzes não se fazem presentes e no breu dos meus pensamentos transbordando de vazios curiosos não penso, não paro, respiro, sei que cedo ou tarde as luzes se acenderão, não penso, não paro, respiro, Play. É como um sonho invadindo a realidade tão obscura, é uma viagem em si com volta e sem aviso prévio. É uma grande bolha de sabão que cresce a cada assopro e estoura por nossa insaciabilidade de querer vê-la cada vez maior. Os olhos brilham, as mãos suam grudadas ao corpo que quase entra na tela, a cada cena os olhos engolem a próxima frase ainda inexistente, a cabeça se deixa invadir, iludir, cria o elo de uma história ainda não contada. O tempo passa, o corpo se aquieta na cadeira, as frases continuam porém os olhos satisfeitos se aquietam na cabeça, fraqueza. O tempo passa, o corpo deita, o tempo mata, os olhos caem, rolos,rolos,rolam, as mãos inquietam procuram o que comer, a luz acende, caio na realidade obscura iluminada na minha frente, de repente tudo acaba, choro, grito, choro mais, esperneio feito criança por um por quê, o final é uma incógnita imposta, embrulho com carinho e coloco no canto, fico olhando por horas, dias, meses o embrulho violado no fundo do quarto, ele se mistura com lacres apertados e caixas amassadas, ainda faltam tantas , me pergunto porque depois de tudo ainda insisto em revirar todas essas caixas, e somente abrir as malditas caixas lacradas.

Peça: Ator

PEÇA : ATOR

Peças barulhentas ao fundo ,se encaixam num movimento suave, escorrem falantes pela gravidade, as imagens gritam num sussurro ,embarcadas em suas viagens, eis o espetáculo. Engrenagens fazem ruídos, e ainda insistimos em não ouvi-los, fazem barulhos, não ficam caladas, pra cima, pra baixo, inquietas, de lado, de ponta cabeça, continuam encaixadas, mesmo que,as vezes, esquecidas, desmerecidas e umas até desconhecidas, continuam na ativa, não param, não calam, e se bem manipuladas, movimentam-se para todos os ângulos, para todos os lados, anunciando a sua maquinaria, enfim, viva. Eis o espetáculo. Perfeitas cartadas cruzadas, se prendem, conectadas, dialogam , movimentam-se muitas vezes de graça, nem todas descansam as oito horas, respiram, reclamam ,mas não calam, não desistem, o todo corresponde suas vidas, dependem uma das outras, por isso, não param, paradas não estão vivas, necessidade de movimento constante, são milhões de possibilidades, distantes não sobrevivem, desconectadas estão inutilizadas, desconectadas, simplesmente, se matam. Por isso não calam, não param, e assim, revelam-se peças da mais instigante maquinaria : o teatro. Eis o espetáculo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

(Charles Chaplin)



A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela começa. Não temos escolha, mas sabemos que ao fim a certeza da morte é a única justiça a que temos direito. Se morrêssemos primeiro quase nunca viveríamos tão intensamente cada segundo, pois o que nos move é a incerteza do amanha. Seria ,as vezes, entediante.
Talvez se todos nascessem nus com um relógio de ouro no pulso ,e nada mais, nos trataríamos como iguais, e ai sim, pensaríamos como seres humanos, seguiríamos nossos instintos e o relógio de ouro seria igualmente suficiente para todos gozarem da vida nos seus pequenos detalhes, nos seus minúsculos momentos que só são percebidos quando somos jovens, irresponsáveis, bebendo bastante álcool e acreditando ser a faculdade o fim dos nossos problemas.
Se nos permitissemos nunca deixarmos de ser criança mesmo depois dos 40, não quereríamos o ciclo da vida de trás pra frente .Não voltaríamos para escola, fugiríamos como sempre fugimos, e depois de termos vivido amores, desfrutado da luxuria, loucuras e liberdade, tenho certeza que não quereríamos sair por aí sem dentes, babando. Não poder sair correndo do colo da mamãe seria o ultimato. Nove meses trancados no escuro e num fluido arqueroso, ficariamos loucos. O perfeito,então, não seria terminar tudo com um ótimo orgasmo, e sim viver todos os orgasmos que a vida por si só nos oferece a cada ar suspirado.
(M.Seba)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tempo determinado.

Tempo determinado.

A pessoa certa não existe e sim a hora exata. A hora em que olhamos para o lado e algo está um pouco diferente, tudo parece mais bobo do que deveria estar. É nesse momento que nos olhamos no espelho e nele reflete a loucura nos olhos , a cara de criança com medo do escuro e a alegria de uma bolada na loteria,tudo isso misturado num único e ingênuo reflexo. Nesse momento somos uma contradição de sensações e nada nos faz acreditar somente sentir o que não pode ser explicado. Nos deixamos levar, ou simplesmente somos levados? Nunca saberemos pois apesar de sempre corrermos contra, a hora exata é tão precisa que não nos deixa escolha e casos não são mais meros acasos. Esse instante não pode ser adiantado com dedos , ou mesmo atrasado tentando enganar os ponteiros. Pois eles, de tão sábios ,nos deixam bobos quando tentamos parar seus relógios, fingimos não sentir seus momentos, insistimos em controlar situações planejando manipular nossos próprios sentimentos. É tudo tão inútil que os ponteiros se divertem, nos enrolam, nos maltratam com a hora que agora passa correndo, e cada momento vira segundos, como um orgasmo que não pode ser prolongado, vivido aos poucos e intensamente , um tesão intervalado que não tem lógica, que não tem fórmula, mas que nos mostra que a pessoa certa é pura utopia e a hora exata é somente uma comprovação.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Malandro de casca.

Malandro de casca.

Fecho os olhos, não sonho.Abro os mesmos, não vejo. Finjo que escuto, que gosto, que gozo loucamente, mas a verdade é que , ultimamente, nada me abala, e tudo é tão pouco que já não me surpreende. Corro do certo e do incerto tão óbvio. Ojerizo quem chega a ponto de o pra sempre eternizar. Não quero utopias, quero somente poder sentir sem ter que tocar. Fazem-me o que lhes mostro, vivo então na malandragem, a malandragem dos olhos sem foco, que desfocados se enforcam, se matam e deixam viver , num palco, o teatro do invejado vagabundo que não chora. Mentira. Malandro chora, apesar de viver na malícia, de controlar seus próprios cordéis e de escolher os dedos dos anéis que irá colocar, ele chora. E por muitas vezes, implora para que não cedam aos seus cortejos e em seguinda dêem beijos apaixonados, disfarçados de descaso. E nesse caso, aí sim, malandro ou vagabundo, que nao tem fundo, como dizem por aí, nesse momento tem peito, e nele também bate o que a respeito de todo ser se debate, um coração incalculável, que diferente dos demais se acostumou a ficar calado. Por isso, mesmo quando ,enfim, o inexplicável se faz reinar e ele encontra-se apaixonado, sofre por não poder gritar, pois por tanto tempo foi obrigado a vestir sua fantasia , mascarado de malícia, um oco malandro idealizado é ,somente, o tão frágil malandro de casca.
(M.Seba)