Até amanha.
Aquele foi o ultimo abraço, e como eu iria saber que nunca mais o sentiria?
Hoje penso que o fiz tão rápido, seguido de um ‘até amanha’ já de costas, escutei ao fundo um ‘boa sorte' ao longe ,e assim teria passado nossa ultima cena.
Tinha uma prova no trabalho no dia seguinte, estava mais preocupada em acertar umas questões estupidas, do que sentir pela ultima vez, seu cheiro, seu abraço ou qualquer palavra boba.
Se a vida nos desse alguns avisos prévios viveríamos mais intensamente cada “eu te amo” , cada suspiro de quem nos faz levantar da cama, e nunca nos deixaríamos abalar por futilidades cotidianas.Mas não, ela prefere nos dar tapas na cara, e mesmo assim, não aprendemos.
Estava a mil, havia feito a maldita prova , problemas não me faltavam, era meio dia no centro da cidade, reclamava do calor desumano daquele inferno , e de um mendigo pedindo-me pão, incessantemente, por algumas esquinas. O telefone não parava de desequilibrar minha paciência, minha mãe me ligava, pensei se ia atender.
Atendi.
Recebi a noticia, juro que ri, era impossível estar acontecendo, nunca ri tanto na minha vida, o desespero era tamanho, que se eu chorasse estaria acreditando naquela verdade,e assinaria um atestado de mundo desmoronando.
Chorei, cai pela parede arrastada, nunca vi a face da morte assim na minha cara. Não queria levantar, estava nua e sentia frio no calor de quarenta graus do Rio . Nada mais fazia sentido, não era um conhecido, um namorado, uma paixao, nem um amigo, era meu melhor amigo. Tive vontade de comer o chão, de andar de quatro, mas não tinha forças nem para dizer que a merda do sapato caro que eu usava não valia mais nada.
Pessoas continuavam passando , nas suas rotinas sem sentido, Olhavam-me e provavelmente iriam comentar a cena ou não, em casa, vendo o jornal da noite, ou durante o jantar.
O tal mendigo olhava-me , fixamente e triste, deixou-me por longos minutos estirada no chão. Estendeu-me a mão. Senti -me o próprio mendigo queria pedir-lhe um pedaço de pão, mas antes de tentar pronunciar qualquer simulação de palavra, ele tirou do bolso um paninho muito surrado, branco amarelado. Morri. naquele momento morri. Abracei-o e só sabia pedir-lhe desculpas. Eu naquele momento eternizei um ato. Não sei dizer se foram segundos, minutos ou dias... ele Acalmou o que não podia ser domado , não naquele momento.
Olhou-me com cara de sábio e mesmo sem alguns dentes pareceu-me o sorriso mais erudito que já tinha visto na vida. Talvez até familiar, mas a situaçao não me deixou pensar.
Disse-me calmamente olhando nos olhos: “O medo da perda nos faz viver cada segundo, se voce não o conhecia, voce não vivia” continuou olhando-me , e assegurando que aquilo não iria passar, iria sim, amenizar e um dia, transformar-se em saudade
Colocou-me num táxi.
Nasci de novo quando ele bateu a porta do carro, e eu chorei sem parar a dor do tapa que o homem de branco havia me dado.
E é essa frase que eu levo , dentro do bolso, até hoje.
Depois de tanto tempo, depois de tanto choro, hoje ainda sinto saudade daquele seu abraço, tão único, que falava mudo, e eu não respondia, fazendo-me de surda, e que guardo com todo cuidado; Não penso em nada quando ganho um abraço depois desse dia.
Dói-me pensar que seu eu pudesse voltar, que se eu pudesse retomar aquela ultima cena....
Talvez tivesse te dado o mesmo abraço.
O mesmo último abraço. Apressado.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
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