Escrever (ê) v. intr. 1. Representar o pensamento por meio de caracteres. 2. Formar letras. v. tr. 3. Pôr ou dizer por escrito. 4. Encher de letras.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tempo determinado.

Tempo determinado.

A pessoa certa não existe e sim a hora exata. A hora em que olhamos para o lado e algo está um pouco diferente, tudo parece mais bobo do que deveria estar. É nesse momento que nos olhamos no espelho e nele reflete a loucura nos olhos , a cara de criança com medo do escuro e a alegria de uma bolada na loteria,tudo isso misturado num único e ingênuo reflexo. Nesse momento somos uma contradição de sensações e nada nos faz acreditar somente sentir o que não pode ser explicado. Nos deixamos levar, ou simplesmente somos levados? Nunca saberemos pois apesar de sempre corrermos contra, a hora exata é tão precisa que não nos deixa escolha e casos não são mais meros acasos. Esse instante não pode ser adiantado com dedos , ou mesmo atrasado tentando enganar os ponteiros. Pois eles, de tão sábios ,nos deixam bobos quando tentamos parar seus relógios, fingimos não sentir seus momentos, insistimos em controlar situações planejando manipular nossos próprios sentimentos. É tudo tão inútil que os ponteiros se divertem, nos enrolam, nos maltratam com a hora que agora passa correndo, e cada momento vira segundos, como um orgasmo que não pode ser prolongado, vivido aos poucos e intensamente , um tesão intervalado que não tem lógica, que não tem fórmula, mas que nos mostra que a pessoa certa é pura utopia e a hora exata é somente uma comprovação.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Malandro de casca.

Malandro de casca.

Fecho os olhos, não sonho.Abro os mesmos, não vejo. Finjo que escuto, que gosto, que gozo loucamente, mas a verdade é que , ultimamente, nada me abala, e tudo é tão pouco que já não me surpreende. Corro do certo e do incerto tão óbvio. Ojerizo quem chega a ponto de o pra sempre eternizar. Não quero utopias, quero somente poder sentir sem ter que tocar. Fazem-me o que lhes mostro, vivo então na malandragem, a malandragem dos olhos sem foco, que desfocados se enforcam, se matam e deixam viver , num palco, o teatro do invejado vagabundo que não chora. Mentira. Malandro chora, apesar de viver na malícia, de controlar seus próprios cordéis e de escolher os dedos dos anéis que irá colocar, ele chora. E por muitas vezes, implora para que não cedam aos seus cortejos e em seguinda dêem beijos apaixonados, disfarçados de descaso. E nesse caso, aí sim, malandro ou vagabundo, que nao tem fundo, como dizem por aí, nesse momento tem peito, e nele também bate o que a respeito de todo ser se debate, um coração incalculável, que diferente dos demais se acostumou a ficar calado. Por isso, mesmo quando ,enfim, o inexplicável se faz reinar e ele encontra-se apaixonado, sofre por não poder gritar, pois por tanto tempo foi obrigado a vestir sua fantasia , mascarado de malícia, um oco malandro idealizado é ,somente, o tão frágil malandro de casca.
(M.Seba)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Numa outra mesa de bar.

Numa outra mesa de bar.

Dois amigos ,de infância, tenho certeza. Violão e cavaquinho se completam na harmonia mais perfeita. Se olham como se com algumas notas estivessem relembrando toda uma vida juntos.Não falam.Vivem esse momento sem uma gota de álcool e gozam o simples significado de uma presença ainda não descrita no dicionário. As cordas parecem tão amigas , conhecidas de anos, de vidas, e mesmo a idade maltratando-os, suas energias se reviram e não param. É tão gostoso, invejável de tão bonito, de tão sincero, mesmo que não seja nada disso,numa mesa de bar eles desesperam a quem pára para os apreciar . Eles dispensam todo cenário e vivem num mundo lacrado ,visivelmente, a mais pura amizade. Alguns poucos olham e passam, outros param não muitos segundos e , eles, sozinhos como eu, não dão a mínima , dão à tapa, suas caras..Eles riem de nada, e são tudo que precisam numa tarde de sábado. Um deles carrega uma boina descombinada com uma camisa de botão , seus olhos,quase que, constantemente fechados não olham ,mas sentem na sua frente,um outro, com uma careca maltratada pelo tempo e um sorriso que, desatento, não se encontra em qualquer esquina , não se pode ser comprado. Levam nada menos que um samba de 1953, 1954 ... bons tempos eles dizem: ‘não te vejo em qualquer lugar’ e à essas musicas, se declaram , se embalam, se reconhecem, e fazem merecer seus próprios poucos trocados . Um mundo deles, ninguém entra e ninguém sai, nem eu sinto por inteiro, só escrevo o que me deixam notar quando notas escapam e ,serenas, ficam no ar. Meu ultimo gole de cerveja ,já quente, me diz agora que esse vazio ao meu lado deveria estar ocupado. Sozinha ouço, vejo, viajo, bem longe, desejo e não choro, também rio como eles, pois o que eu vejo , também vivo, e mesmo que nesse momento não possa se sentar na cadeira , tenho certeza que ela está do meu lado, disfarçada de vazio, escutando o mesmo samba e brindando mais uma cerveja, jurando outra vez ,ser este o nosso ultimo cigarro.

(M.Seba)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma certeza inconsciente.

Uma certeza inconsciente.

São seis da manhã. Me aceite!
Não, não aceito! é tudo uma grande mentira! E ainda rio de você pobre sonhador estagnado no seu mundo de utopias mal contadas, não aceito, não lhe dou o braço a torcer, sempre foi assim meu senhor. Não insista.
São dez da manhã. Por favor, não me negue.
Não irei mais ouvir voz essa que me contradiz, me dizendo que tenho que ser bobo por uma causa sem explicação, não tenho tempo para isso. Gostei sim, mas foi passado acredite, hoje gosto de outras mãos e amanhã, mais delas sobre as minhas surgirão.
São duas horas da tarde. Não minta para si, não me peça que acredite nas suas falsas verdades.Apague esse cigarro sobre suas conversas fiadas. Suba lá e me aceite!
Agora você realmente me convenceu. Não apagarei meu cigarro, e acenderei um atrás do outro sem parar , não sobre minhas histórias, mas sobre memórias que hei de contar com o mesmo sorriso sarcástico que subirei agora nesse altar. Serei irônico para te satisfazer, então quer que eu aceite? Não me mate de rir, ainda tenho muito pra respirar, vamos olhe para mim! Eu não nasci para ter linhas marcadas, minha vida gira mais rápido que suas pérfidas palavras. Eu...
Cale a boca. São cinco horas. Olhe para ela e me negue agora!
São os olhos mais estúpidos que eu já vi. São os mais lindos. De joelhos fico diante da maior falta de perfeição, pois perfeito é descritível e isso não pode ser traduzido, é real, não uma simples idealização de livros, é sincero, eu sinto, é meu, estou certo.
São nove horas. Está vendo? Aceite-me seu idiota . Olhe,você está babando com seus sentimentos nus na frente de toda uma multidão, o que está esperando?
Realmente estou nu, e sinto todas as partes do meu corpo babando , vibram ao som que bombeia cada segundo , não espero mais nada, e ‘nada’ nada representa agora. ‘Tudo’ se revela a única palavra a ser dita. Ela me ouve, me fala, me entende, me vê, me quer, me olha e me prende sem deixar escapar uma única palavra...
Você tem cinco minutos. O outro dia está chegando. Esta é minha ultima súplica, não me faça te machucar.
Não! É tudo mentira!
Dois minutos.
Quer dizer...
Meia - Noite. Tarde demais.
Não , nao vá!
Nasce outro dia.
E mais um.
E mais outro.
Outro...
E então ... já somos outros, não somos nem muito nem pouco, somente outros, irreconhecíveis.
Te olho agora depois de tanto tempo e vejo que ao correr me fiz um estúpido - que descoberta fantástica, sua vez de ser sarcástica, tudo bem.
Fiz jus ao mundo mas não a mim, aprendi a não acreditar num amor que foi desacreditado ,pois quando ele diz que machuca, é mentira, ele destroi e ri de quem o negou, sem pena, fazendo lembrar sempre que possível daquele cigarro que, por algum motivo imaturo, não foi apagado.

domingo, 5 de setembro de 2010

Um dom?

Um dom?

Dote natural, talento irrevogável, que nos nasce entranhado, inefável explicação. Interroga-nos a cada instancia, sua presença um alívio, que dissolve a incessante busca dessa dádiva desconhecida. Cobramo-nos a todo instante sermos possuidores de um dom, se não nascemos para cantar que pintemos quadros sem as mãos, ou seja, reviramo-nos por toda uma vida ,mas não aceitamos morrer sem descobrir alguma mínima autenticidade que em nós, abriga-se. Em contrapartida , não mais procuro, e digo convicto, meu dom é de amar a vida , de amar na forma mais infantil, e de chorar transparente a ausência prévia de uma breve despedida. De falar com as mais inocentes palavras um ‘eu te amo” sem algum mínimo sentido seguro , mas sentir no sentido verídico a simples presença do puro. De ser bobo e ridicularizar o trágico com pobres ditos tolos, amando e fazendo da vida ,o dom de acabar sem medo com as regras inexistentes de um jogo. Ter um dom é ignorar dicionários, com pequenas atitudes aparecer e engrandecer esse rico cenário da vida, nela passar e receber o que é oferecido, em alguns casos, lidar com o dom dissimulado de dar a vida à algumas linhas, pois escrever é, simplesmente, amar, sentir-se vivo e passar para um pedaço de papel algumas poucas palavras soltas que juntas fazem, ou não, algum sentido.

(M.Seba)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Finalmente.

Finalmente.

Não me importo se pensas
O que falas são falsas aparências
Tão aparentes quando me olha
Escoltada de legendas.
Que irrefutáveis, e sem sentenças,
Sem pena, delatam-te.

Não me importo o que penso
O que faço não tenciono
E se me perco o juízo
Roubo-te parte , equilíbrio
E traio um vício, erradicado.
Num cego olhar,
Imprevisível.

Não me importo o que faço, mas faço.
pois o que fazes, qualquer espontaneidade,ilude
O que falas contrasta atitudes, uma cortesia tão rude
Que me parece suave aquele tapa na cara.

Viro-me.
E se agora me importo,
não faz alguma diferença.
A lucidez fica.
A insensatez caminha,
e de costas vou-me embora.

sábado, 10 de julho de 2010

Orgasmo.

Orgasmo.

A verdade que te minto
É a mentira que te digo
Faz-se verdade tudo que sinto
Quando minto , por puro colírio,
o delirio veridico que não satisfaz.

(M.Seba)