Cheiro de chiclete.
No susto, o som agudo se esgoela, quem é ela, tantos porquês, Incredulidade no seu ser, não tem desenho na TV, revolta, tudo isso a sua volta, será que não tem volta aquele mundo renascer?. Levanta, sem o colo que lhe deu vida, bendita, maldita hora de relembrar, não tem merendeira ,leite quente na mamadeira, giz de cera para pintar, reclama , se pergunta com a voz arrastada, o que a faz acordar. Despida, se depara com o espelho, vermelho, escorrendo nas entranhas, estranhas que nunca parou para espiar.Instinto despertado, já não faz mil travessuras, tira o dedo na tomada, pra dormir já não tem hora, papai Noel não lhe traz nada. Enquanto chora, pêlos não ficam somente na cabeça,se entocam no refugio do seu corpo,encorpado, assustada com tanta informação , olha pra baixo, não acredita, seus peitos avantajados , sem jeito, furam delicados o pijama de ursinho costurado à mão , desgastado pelo tempo, lamento, está na hora de crescer. Seca as lágrimas, ao seu redor , prateleiras coloridas, bonecas sorridentes injuriadas,arrastadas para um canto, desencanto ao abrir o armário, cheiro de chiclete e roupas imitando o arco íris saem voando, a deixando, sobrando apenas saltos proibidos, vestidos de boutique, ternos e perfumes importados para todo lado.Vira, fita a cama alongada,não entende nada, pra que todo esse espaço? A porta embutida revela, entre o vapor de um banho quente, sai um homem enrolado, um grito de assombro, todo o resto está pelado, e só agora entende o porquê de tanto espaço .Com um beijo nos lábios se apresenta, congelada naquele vapor, não agüenta, corre e se desorienta pela casa, a memória estala, eu já vi essa morada, nas páginas de revistas, noivas sorrindo na capa, é meu sonho de criança, alucinada menina, fantasiando no colégio com as amigas na escada .Pára, fecha os olhos e concentra, para que desse sonho possa acordar, sua calça repuxada atrapalha, é um menino, lindo, com olhos a fitar, choroso com a injustiça a reclamar:_Mamãe ele ta me batendo!. Não isso não pode estar acontecendo .Filhos , marido, uma casa pra cuidar, sem um colo pra deitar. Uma voz grave interrompe seu pensamento, um homem alto, desgastado pelo tempo, se atreve a lhe entregar, papéis empilhados, contas pra pagar,cadê meu livro de colorir, o desejo de voar....aaaaaaahh.... só resta se jogar no sofá,despenca, o sono exerce domínio sobre todo esse embaraço, e sem um laço para terminar, uma voz doce a acalma, sente perto a sua alma, o conforto do leite quente na cama torna a reinar.No susto, o som agudo se esgoela, mas não da sua goela, despertador insistente grita... está na hora de acordar!... tudo novamente colorido a sua volta, o cheiro de chiclete está no ar, alivio, está leve, sente vontade de voar, no conforto do colo quente que ainda não mente, longe do susto daquele pesadelo, fala a pensar ,: _Mamãe me promete uma coisa sem cruzar o dedo? Quando eu crescer quero ter filhos, marido e uma casa pra cuidar, mas não me deixe o cheiro de chiclete perder, não me deixe nunca, parar de brincar. (M.Seba)
terça-feira, 13 de abril de 2010
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