Almofada de Cetim
O sol me acorda, com um tapa na cara, levanto triturado, todos os ossos desossados, vôo de calçada em calçada, desvio de grandes motores, brinco entre os odores de um beco abandonado, sinto que estou vivo, peripécias e cheiros fortes confirmam-me liberdade, sem cordas, sem acordes, reviro-me dentre restos, saboreio-me num banquete , são finos filetes, as minhas costelas sobressaltas. Salto, assalto, no asfalto, na calçada, sou feliz, não tenho roupas, sapatos, e nem hora de mijada. Barriga para o alto, nem cheia , nem vazia, nem farta, nem mendiga, desespero, alegria, sou modelo de piada,mesmo assim eu me distraio, vadiando vagabundo, minha vida moribunda, pára e a vê passar, visão estimulante , uma dama de madame, tosada, perfumada, a essência merecida do mais caro elogio, do mais caro descarado. Peito estufado, estirpe elegante, faço-me o melhor da sua nobre linhagem, ladro sem medo e ,simplesmente, dou de cara na calçada, não me nota, desmonta o pobre vira-lata, na lata, sem dó, tão cedo; Nao me desfaço, tenho o cheiro da caça notável na boca, carência de pelos, muito pouco, intercalados, não me nota de novo, que tolo, tão obvio o seu olhar, descrevem-me claramente sua almofada de cetim , recolho-me, enrolo-me e escondo-me , no conforto do meu papelão tímido num cantinho amassado, ela desvia e a deixo passar; ignorância, santa ignorância, a dama quer no mínimo uma cama pra deitar ,infeliz, você só tem a elegância de um cavalheiro nato, e para lhe oferecer, um pedaço de asfalto, e nada mais. Volto com minha barriga para o alto, e ela para o topo dos meus vagabundos sonhos de um rico vira-lata que não se cansa de sonhar.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
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